romance: uma história sem narrativa. um filme sem história. ou: nem um filme, nem uma história; nada que formalizasse algo, nem tampouco o enobrecesse com alguma aproximação de qualquer tipo de uma arte refinada, ou bruta, mas sempre uma admirável arte da habilidade e gênio humanos. a mais imprecisa das definições como a mais precisa das representações.
um acontecimento sem conexão. apenas um amontoado de fatos... fatos? eventos? nenhuma fenomenologia comportava a representação desta série de relações em rotas de colisão, em um turbilhão de decisões, comportamentos, equívocos, acertos, erros, crueldades, indiferenças, compaixões rasas e comiserações autocentradas. pobreza da inalteridade.
apenas um sentimento, uma inquietação incessante, uma solidão insuperável, uma frustração permanente e uma prisão sem fuga, porque uma prisão da liberdade, lesão sem crime, mal sem reparação. apenas uma sensação degradante, incompreensível, desrespeitável e, subindo dois palmos, realmente insignificante. somente uma fonte da culpa, um buraco negro da felicidade, uma mácula no passar do tempo e uma tristeza corrosiva.
um bilhete perdido no fundo daquelas infinitas gavetas, um papel rasgado por dentre aquelas pilhas infinitas que se perdem em prateleiras, cadeiras, mesas, chão, esparramando-se na mistura da poeira, amarelando-se, apagando-se à luz, diluindo palavras em oxigênio. profecia milenar, mitologia cifrada. apenas um sentimento do retorno, de que tudo se desfaça, que o sofrimento retorne a sua origem e que aos responsáveis se reverta todo o mal.
se as palavras alimentam e devem cessar para desnutrir, então o silêncio é a salvação.
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